Dia 27

Os portugueses auto-desvalorizados têm, na verdade, um valor escondido no mundo.

É precisamente no mundo que este se reflete. É agora, longe de casa, que o vejo. Longe do nosso cantinho onde tanto gostamos de nos esconder vejo, finalmente, que mais do que muitos dos nossos vizinhos europeus, temos trabalhado pelo nosso lugar no mundo.

Tudo começa com a representação portuguesa, a nível do programa Erasmus, que vejo aqui em Milão. Tendo em conta as pequenas dimensões da nossa querida terra, somos ainda um número considerável de portugueses mas, mais importante que isso, é o facto de estarmos aqui a romper com estereótipos. Mantemos, claro, a nossa baixa estatura, a nossa aparência latina e, mais notório ainda, os nossos hábitos tardios e pachorrentos. Juntamente com os espanhóis, somos nós quem almoça e janta mais tarde, quem acorda e se deita mais tarde, quem (se pudesse) prolongava a festa por mais tempo. Mas de resto, e esquecendo tais inofensivos hábitos, não trouxemos connosco falta de vontade para trabalhar, escassez de inteligência, não trouxemos qualquer tipo de complexo de inferioridade que se pudesse esperar, e até as mulheres de bigode foram deixadas para trás.

Trouxemos, por outro lado, um punhado de mentes jovens e cultas, estudantes interessados e portugueses orgulhosos. Mais do que isso, falando em termos práticos, é pela nossa fácil integração que nos distinguimos e, sobretudo, pelo domínio da língua inglesa que é aqui uma fundamental ferramenta no contacto com culturas e línguas tão diversas. Este facto tem sido motivo de discussão e espanto para muitos quando, generalizando, os restantes povos latinos são alguns dos piores falantes da língua inglesa já vistos. Tudo começa pela falta de prática – os filmes e programas são dobrados e os livros traduzidos (para além de que talvez tenham um maior leque de escolha cultural a nível nacional) e, pelos testemunhos, o próprio ensino não se dedica muito à questão. Já em Portugal, o ensino da língua inglesa é fundamental. Penso agora que, talvez, tal necessidade se reflita na nossa pequenez e nas nossas circunstâncias atuais. É possível que um país a atravessar uma grave crise económica e que, na realidade, há anos que não tem um lugar significativo no panorama europeu e mundial, se preocupe especialmente em desenvolver nos seus cidadãos a capacidade de criar e manter relações internacionais. Para além do ensino, a cultura pede-nos que dominemos o inglês e há ainda a questão fundamental da fonética – o português obriga-nos à utilização de uma enorme variedade de sons que nos facilita a aprendizagem de línguas e, juntando-se à prática, permite-nos um sotaque bastante agradável e neutro. Sou, claro, suspeita quando o digo mas a verdade é que tal fenómeno tem sido verificado e confirmado por falantes de língua inglesa.

Sejam as razões quais forem, o facto é que acabamos por passar uma fantástica imagem quando postos lado a lado com sotaques incompreensíveis e gramáticas saídas de um filme de terror. As exceções existem, é claro, mas a regra persiste (e possamos nós também ser um bocadinho preconceituosos). Os franceses, demasiado orgulhosos, possivelmente recusam-se a aceitar que já não é o francês a língua predileta da comunidade internacional. O resultado são construções gramaticais aterradoras e, até mesmo quando a gramática é boa, um sotaque incrivelmente cerrado é sempre o grande delator – por mais incrível que pareça, existem mesmo alguns sons que eles são simplesmente incapazes de produzir. Os italianos estão em casa e, por isso, é bom que aprendamos a sua língua senão bem que podemos ficar a falar para as paredes. É possível encontrar alguns estudantes de línguas capazes de falar inglês mas, ainda assim, seria de esperar que os encontrasse em maior número naquilo que é o equivalente a uma faculdade de letras em Portugal. Os sotaques de quem fala são, no entanto, hilariantes (no bom sentido). São até compreensíveis mas, normalmente, não há como não perceber que se trata de um sotaque italiano. Os espanhóis nem tentam.

Existem depois os alemães que têm, geralmente, um inglês fantástico mas que, por outro lado, se preferem isolar e manter-se por perto uns dos outros. Fui apresentada a pessoas de tantas outras nacionalidades, com sotaques tão diferentes e hábitos tão opostos, mas não sou capaz de formar uma opinião generalizada sobre elas. Constatei, porém, algo interessante: o mapa torna-se, neste cenário, algo físico, passando agora à realidade. Os países mais próximos e, por conseguinte, as culturas e línguas mais parecidas, tendem a unir-se e as amizades a crescer a partir daí. Quando o inglês não domina é só normal que se misturem línguas similares, permitindo assim a comunicação.

Os portugueses estão, no entanto, numa posição favorável à exposição e intercâmbio cultural e esse é só mais um dos motivos para nos orgulharmos das nossas origens. Livres de grandezas desnecessárias ou de orgulho mal aplicado somos, uma vez mais, portugueses do mundo e para o mundo.

Camila

1 comentários:

 

Sed Auctor

Quis Mauris

Suspendisse Dolor