Os portugueses auto-desvalorizados têm, na verdade, um valor
escondido no mundo.
É precisamente no mundo que este se reflete. É agora, longe
de casa, que o vejo. Longe do nosso cantinho onde tanto gostamos de nos
esconder vejo, finalmente, que mais do que muitos dos nossos vizinhos europeus,
temos trabalhado pelo nosso lugar no mundo.

Tudo começa com a representação portuguesa, a nível do programa Erasmus, que vejo aqui em Milão. Tendo em conta as pequenas dimensões da nossa querida terra, somos ainda um número considerável de portugueses mas, mais importante que isso, é o facto de estarmos aqui a romper com estereótipos. Mantemos, claro, a nossa baixa estatura, a nossa aparência latina e, mais notório ainda, os nossos hábitos tardios e pachorrentos. Juntamente com os espanhóis, somos nós quem almoça e janta mais tarde, quem acorda e se deita mais tarde, quem (se pudesse) prolongava a festa por mais tempo. Mas de resto, e esquecendo tais inofensivos hábitos, não trouxemos connosco falta de vontade para trabalhar, escassez de inteligência, não trouxemos qualquer tipo de complexo de inferioridade que se pudesse esperar, e até as mulheres de bigode foram deixadas para trás.
Sejam as razões quais forem, o facto é que acabamos por
passar uma fantástica imagem quando postos lado a lado com sotaques
incompreensíveis e gramáticas saídas de um filme de terror. As exceções existem,
é claro, mas a regra persiste (e possamos nós também ser um bocadinho
preconceituosos). Os franceses, demasiado orgulhosos, possivelmente recusam-se
a aceitar que já não é o francês a língua predileta da comunidade
internacional. O resultado são construções gramaticais aterradoras e, até mesmo
quando a gramática é boa, um sotaque incrivelmente cerrado é sempre o grande
delator – por mais incrível que pareça, existem mesmo alguns sons que eles são
simplesmente incapazes de produzir. Os italianos estão em casa e, por isso, é
bom que aprendamos a sua língua senão bem que podemos ficar a falar para as
paredes. É possível encontrar alguns estudantes de línguas capazes de falar
inglês mas, ainda assim, seria de esperar que os encontrasse em maior número naquilo
que é o equivalente a uma faculdade de letras em Portugal. Os sotaques de quem
fala são, no entanto, hilariantes (no bom sentido). São até compreensíveis mas,
normalmente, não há como não perceber que se trata de um sotaque italiano. Os
espanhóis nem tentam.
Os portugueses estão, no entanto, numa posição
favorável à exposição e intercâmbio cultural e esse é só mais um dos motivos
para nos orgulharmos das nossas origens. Livres de grandezas desnecessárias ou de orgulho mal aplicado somos, uma vez mais, portugueses do mundo e para o mundo.
Camila
Camila

!!!
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