O tempo livre para escrever não é muito. Quando não estou ocupada estou cansada e, honestamente,
fico a pensar sobre o que seria interessante falar.
Entretanto, dia 22 de Fevereiro celebrou-se a cerimónia anual de entrega dos Prémios da Academia, normalmente conhecidos como Óscares. Tendo quebrado este ano a tradição de seguir a cerimónia em direto fiquei, no entanto, muito contente com a atribuição dos prémios. Por isso mesmo, gostava de falar um bocadinho sobre o grande vencedor da noite que, a par com The Grand Budapest Hotel (também ele muito bem conseguido), conquistou quatro estatuetas douradas. Birdman recebeu o prémio de melhor filme, melhor realizador, melhor argumento original e de melhor cinematografia.
O filme realizado por Alejandro González Iñarritu é, de facto, uma obra prima. Não me alongarei no que diz respeito aos aspetos técnicos pois, apesar de conseguir apreciar a sua beleza, pouco poderia dizer sobre eles. Foi, no entanto, com a sua vitória na categoria de melhor argumento original que eu mais rejubilei.
Birdman apresenta-nos mais do que uma (corajosa) crítica a Hollywood, à Broadway e aos media, apresenta também uma crítica, num contexto muito mais pessoal, às nossas próprias complexas aspirações, mostrando a impossibilidade de alcançar a felicidade quando o tentamos fazer num patamar tão elevado.
De facto, passamos da fundamental crítica ao cinema americano, ao seu vazio e à fama fácil e passageira (mas também aditiva) que lhe é inerente, para o mundo do teatro onde aparentemente tudo é mais profundo, trabalhoso e significativo. Não falamos, no entanto, de uma pequena companhia mas antes do teatro da Broadway que se une a Hollywood num ponto fundamental - a grandiosidade. E, como tudo o que é grandioso, é também facilmente desmontável.
É então nos seus bastidores que vemos os seus problemas e falhas, a grandeza transformada em miséria, o ânimo em desgraça. Mas mais que isso, é na relação do mundo do espetáculo com os media que se espelha o grande alvo da subtil fúria do filme. Os media surgem que nem gigantes canibais com o poder e força para moldar a mente do público que prontamente aceita o que lhe é dado.
Porém, o mais interessante fenómeno dá-se quando Riggan deixa de fugir de Birdman e do seu passado, aceitando-os como apogeu da sua felicidade sem retorno, aceitando a sua presente desgraça e, creio, pela primeira vez, tirando proveito dela, ainda que durante pouco tempo.
Mostra-se assim a dificuldade inerente ao ser humano em ver-se realizado nas suas próprias realizações, mostra-se a inevitável tragédia artística e intelectual, o dilema entre o nada capaz de trazer tudo e o tudo que nos desgraça. Os sonhos e a sua construção nunca são totalmente alcançados (ou, pelo menos, nunca são sentidos como tal) e o trabalho nunca totalmente recompensado. Lesley mostra-o bem quando, em total desespero, diz: "Sonho ser atriz da Broadway deste que sou miúda. E agora estou aqui. E não sou uma atriz da Broadway. Continuo a ser apenas uma miudinha. E continuo à espera que alguém me diga que consegui alcançar o que queria".
A vanidade de Hollywood é, em última análise, a melhor opção - símbolo da vida simples, fácil, deixada correr, símbolo da sorte e do azar. É este caminho que Riggan escolhe por fim e, como sabemos, tarde demais.
Este tema dá-nos, claro, uma infinidade de caminhos para percorrer. O mundo real ensina-nos que a ambição, a realização pessoal e a nossa própria educação sobrepõem-se, grande parte das vezes, à felicidade que nos é invisível mas tão próxima. Ensina-nos que talvez só a possamos ver quando percebemos que o topo do mundo não nos agradou. Ensina-nos que, tragicamente, talvez não haja solução quando a única possibilidade de felicidade não nos agrada, quando a felicidade vã e ingénua sabe a pouco. Mas talvez nos ensine, se quisermos, a procurá-la em nós próprios, sem que tenhamos que depender do exterior para a alcançar. Fosse talvez possível que Birdman coexistisse pacificamente com Riggan que tentava, e possivelmente conseguiria, encontrar-se pleno e realizado no seu novo projeto de vida.
Camila
fico a pensar sobre o que seria interessante falar.
Entretanto, dia 22 de Fevereiro celebrou-se a cerimónia anual de entrega dos Prémios da Academia, normalmente conhecidos como Óscares. Tendo quebrado este ano a tradição de seguir a cerimónia em direto fiquei, no entanto, muito contente com a atribuição dos prémios. Por isso mesmo, gostava de falar um bocadinho sobre o grande vencedor da noite que, a par com The Grand Budapest Hotel (também ele muito bem conseguido), conquistou quatro estatuetas douradas. Birdman recebeu o prémio de melhor filme, melhor realizador, melhor argumento original e de melhor cinematografia.
O filme realizado por Alejandro González Iñarritu é, de facto, uma obra prima. Não me alongarei no que diz respeito aos aspetos técnicos pois, apesar de conseguir apreciar a sua beleza, pouco poderia dizer sobre eles. Foi, no entanto, com a sua vitória na categoria de melhor argumento original que eu mais rejubilei.
Birdman apresenta-nos mais do que uma (corajosa) crítica a Hollywood, à Broadway e aos media, apresenta também uma crítica, num contexto muito mais pessoal, às nossas próprias complexas aspirações, mostrando a impossibilidade de alcançar a felicidade quando o tentamos fazer num patamar tão elevado.De facto, passamos da fundamental crítica ao cinema americano, ao seu vazio e à fama fácil e passageira (mas também aditiva) que lhe é inerente, para o mundo do teatro onde aparentemente tudo é mais profundo, trabalhoso e significativo. Não falamos, no entanto, de uma pequena companhia mas antes do teatro da Broadway que se une a Hollywood num ponto fundamental - a grandiosidade. E, como tudo o que é grandioso, é também facilmente desmontável.
É então nos seus bastidores que vemos os seus problemas e falhas, a grandeza transformada em miséria, o ânimo em desgraça. Mas mais que isso, é na relação do mundo do espetáculo com os media que se espelha o grande alvo da subtil fúria do filme. Os media surgem que nem gigantes canibais com o poder e força para moldar a mente do público que prontamente aceita o que lhe é dado.
Porém, o mais interessante fenómeno dá-se quando Riggan deixa de fugir de Birdman e do seu passado, aceitando-os como apogeu da sua felicidade sem retorno, aceitando a sua presente desgraça e, creio, pela primeira vez, tirando proveito dela, ainda que durante pouco tempo.
Mostra-se assim a dificuldade inerente ao ser humano em ver-se realizado nas suas próprias realizações, mostra-se a inevitável tragédia artística e intelectual, o dilema entre o nada capaz de trazer tudo e o tudo que nos desgraça. Os sonhos e a sua construção nunca são totalmente alcançados (ou, pelo menos, nunca são sentidos como tal) e o trabalho nunca totalmente recompensado. Lesley mostra-o bem quando, em total desespero, diz: "Sonho ser atriz da Broadway deste que sou miúda. E agora estou aqui. E não sou uma atriz da Broadway. Continuo a ser apenas uma miudinha. E continuo à espera que alguém me diga que consegui alcançar o que queria".
A vanidade de Hollywood é, em última análise, a melhor opção - símbolo da vida simples, fácil, deixada correr, símbolo da sorte e do azar. É este caminho que Riggan escolhe por fim e, como sabemos, tarde demais.
Este tema dá-nos, claro, uma infinidade de caminhos para percorrer. O mundo real ensina-nos que a ambição, a realização pessoal e a nossa própria educação sobrepõem-se, grande parte das vezes, à felicidade que nos é invisível mas tão próxima. Ensina-nos que talvez só a possamos ver quando percebemos que o topo do mundo não nos agradou. Ensina-nos que, tragicamente, talvez não haja solução quando a única possibilidade de felicidade não nos agrada, quando a felicidade vã e ingénua sabe a pouco. Mas talvez nos ensine, se quisermos, a procurá-la em nós próprios, sem que tenhamos que depender do exterior para a alcançar. Fosse talvez possível que Birdman coexistisse pacificamente com Riggan que tentava, e possivelmente conseguiria, encontrar-se pleno e realizado no seu novo projeto de vida.
Camila

Ai a vã felicidade no topo do mundo! É isso! Lindo!
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