Dia 1

O primeiro dia é o derradeiro. Irá portanto ser relatado, excecionalmente, de forma mais detalhada.

Carregando uma mala de 20 kg, outra de 15 kg e uma mochila de 5 kg as costas – assim se iniciou o meu dia pelas 7h da manhã rumo ao aeroporto Francisco Sá Carneiro. Sim, levei a casa toda às costas e não, não me arrependi. Foram poucas e curtas as vezes em que tive de carregar malas até chegar à residência.

No aeroporto, uns abracinhos, uns risos e até algumas lágrimas acompanharam-me até onde puderam. O meu estado emocional foi sempre muito sereno, para meu próprio espanto dado que este por vezes tem vida própria. (As viagens já feitas ajudaram com certeza, o protocolo era mais que conhecido e o próprio aeroporto mais que pisado). O voo, ainda que apinhado, foi tranquilo e passado a dormir. Acordei para uma espetacular paisagem montanhosa decorada por neve que derretia ao sol crescente e, ainda indiferente à mudança, contemplei-a até á aterragem.

Chegada a Bergamo, Milão, recompus o estômago com um magnífico croissant servido por uma senhora absolutamente implacável e apanhei o autocarro até ao centro. Uma vez na estação central, um senhor com metade dos dentes que seria suposto ter, ao ver-me com pelo menos uma mala quase do meu tamanho, correu para mim transportando o que se assemelhava a um carrinho de transporte de malas do aeroporto. De olhos esbugalhados perguntou: “Hotel?”. Várias vezes. “No no”, respondi. Perguntei-lhe se a rua para onde pretendia ir ficava muito longe dali ao que me respondeu que deveria demorar uns 40 minutos a chegar a pé mas uns meros 15 minutos de táxi. Não me enganou. Levou-me ao táxi (enquanto transportava as minhas malas) e quando me deixou dei-lhe as moedas que tinha no bolso. Apercebi-me então que tal gesto e tal quantia (1€ e pouco) tanto poderiam ser dignos de um insulto ou de uma vénia. Itália… Tão próxima, tão europeia mas, no entanto, um país diferente com cultura e hábitos que me ultrapassavam. A verdade é que o senhor desdentado não deu saltos de alegria, mas também não me bateu, por isso talvez lhe tenha dado uma quantia agradável q.b..

Se em alguma altura chegara a estar em êxtase, ansiosíssima por viver Milão, esses sentimentos esmoreceram quando cheguei à residência. Não vou mentir, a residência que escolhi face aos preços exorbitantes que Milão me pediu por apartamentos, surgiu como um susto. O que o taxista me havia mostrado foi confirmado pela rececionista – italianos e a língua inglesa são tudo menos um bom par. Para além disso, fui com expectativas falsas em relação aos serviços disponibilizados, nomeadamente às refeições, e até o quarto foi capaz de me desiludir. O fator impessoal foi o maior problema e seria algo com que já deveria contar. A minha companheira de quarto não estava lá, apenas as coisas dela que conseguiam ocupar toda a superfície e gaveta existente, como seria próprio de alguém que não contava com um coinquilino tão cedo. O acesso à internet – único recurso que tinha para falar com Portugal – requeria dados que eu não tinha e por isso decidi ir à faculdade pedi-los. Como não podia deixar de ser, o gabinete de Erasmus estava fechado mas aproveitei e dei uma volta pela faculdade e essa, à primeira vista, não me desiludiu.

A todas estas coisísses juntou-se o não saber como ou o que jantar à noite e, assim, arrastei-me para o quarto, derrotada. Quase quase pronta a ter uma crise, fui salva pela Juicy, a minha alegre companheira de quarto que estava ocupadíssima a arrumá-lo quando lá cheguei. Pediu-me desculpa por não o ter arrumado antes mas a sua justificação que envolvia festa, álcool e aulas no dia seguinte pareceu-me bastante plausível. Imediatamente, explicou-me como funcionavam as coisas por aqui, apresentou-me a todos os nossos vizinhos e até nos fez um jantarzinho. Fez-me sentir o mais à vontade possível numa terra onde não conheço nada nem ninguém. O maior entrave é, para já, a língua que pretendo começar a praticar a sério assim que perceba onde são as aulas que devo frequentar.
Escrevo de novo assim que possa.

Beijos,

Camila


P.S.: Este texto está a ser publicado com um dia de atraso (esteve em papel até agora) pois, como sabem, não tinha internet.

2 comentários:

 

Sed Auctor

Quis Mauris

Suspendisse Dolor